De um pólo ao outro.

Eu tive o desprazer de vê-lo se transformar em tudo o que eu menos esperava. Nem ao menos sei se isso pode se denominar transformação. Nos verbetes de meu vocabulário eu não encontro uma palavra que se encaixe exatamente no que vem ocorrendo. Talvez seja preciso criar uma. Ela precisaria significar uma mudança brusca que vai de um pólo ao outro destruindo tudo que há no meio, ignorando qualquer coisa que exista ali. Uma porção de alterações tristes, medíocres e nojentas. Algo assim.

E o que ela causa em você é um conjunto de negativade absurda que você não consegue lidar. Uma mutação de nível extremo que faz a compreensão abandonar seu ser te deixando recheada de questionamentos eternos que nunca serão respondidos. Te desnorteia, pois com diferenças tão gritantes é impossível assimilar o antigo e o novo, você precisa escolher qual é o real. E é uma decisão difícil, pois antigas memórias surgem para embaralhar sua mente, enquanto acontecimentos recentes pesam pra outro lado.

Modificação degradante que você leva um tempo pra conseguir perceber e mais tempo ainda pra aceitá-la. Bom, aceitar não é bem a palavra, já que você não tem escolha. Tá mais pra um reconhecimento. Você simplesmente reconhece que ele não é mais o que era antes.

E eu não falo só do causador, mas também do que ele causou em meus sentimentos.

Silvana Breion.

Antônimo.

Eu sempre quis fazer a diferença. Sabe aquele papo de causar impacto no mundo? Nem que fosse só no mundo-de-alguém. Ser diferente pra alguém. Invadir o universo próprio de cada ser humano e transformar alguma coisa, nem que fosse mínima. Ser lembrada ou reconhecida por alguma característica rara, algum ato glorioso, algumas palavras sábias, entre outras coisas. Assumo que isso se aproxima de uma vontade de ser especial.

Quando de repente eu me vejo a frente de uma oportunidade de realizar tudo isso, eu simplesmente não consigo. É como se as minhas tentativas fossem não apenas fracassadas, mas transformadas em antônimos. Tudo interpretado do avesso. A frustração que isso gera vai cada vez mais absorvendo todas as minhas novas tentativas e assim por diante. É como um ciclo de fracasso que vai detonando esse meu desejo, sufocando a esperança.

A ideia de passar despercebida na vida das pessoas sempre e aterrorizou.
Pra mim é uma existência em vão.
Qual o objetivo da vida senão transformar ideias, momentos, vidas?
Eu me sinto um nada quando isso acontece. Uma simples alma indiferente vagando entre outras tantas incríveis.
Quando serei boa suficiente nisso? Quando terei a capacidade de realmente ser diferente para as pessoas, para o mundo… Para você?

Silvana Breion.

Luta.

Viemos à guerra.
Nós lutamos em nome do amor.
Viemos totalmente armados.
Destruição em massa dos medos.
Apontamos nossas miras para as diferenças
Mas vez ou outra, antes do tiro, alguém se rende.
E quando alguém se fere, buscamos abrigos em tanques
Onde não encontramos paz, mas encontramos blindagem
Escapando de mais ferimentos, fugindo da dor.
Nossos corações flechados se encontram em um mesmo campo de batalha
Que frequentemente é invadido por granadas de amor que explodem
Enfraquecendo nossa artilharia, pois somos fuzilados por sentimentos.
Indagamos a nossa batalha. Nós não sabemos.
E por mais que às vezes a derrota, pareça mais fácil do que a luta,
Nós seguimos lutando.
Ambos em nome do amor, em um mesmo campo e de mãos dadas.

Silvana Breion.

Encontro.

Eu encontro você, mesmo sem procurar.
Não se trata de um achado, mas de uma aparição.
Você está naquela música do Pink Floyd.
Está em belas fotografias.
Nos conselhos absorvidos
Naquela lembrança mais doce e pura
Naquela bebida quente
Naquele sonho realizado
Naquele fluxo de saudade
E nesse coração abatido,
Que sempre levará o teu nome
Seja em músicas, poemas
Fotos ou lembranças
E estará principalmente
Na maior prova
Da força de um amor.

Não é preciso te procurar
Nem ao menos saber onde você está
Pois você surge, no momento mais inesperado
Pra lembrar que
Memórias não somem assim.

Silvana Breion.

Falhas.

Sempre e em tudo há uma falha.

Um borrão no quadro, um buraco na parede, um tijolo meio torto, uma coluna desalinhada, um azulejo espaçado demais, um piso arranhado, um rodapé mais alto, uma lâmpada com mal contato, uma maçaneta com problemas, uma janela que não fecha, um vidro levemente trincado, uma torneira que pinga, um chuveiro que não esquenta, um cano furado, um fio descascado, um teto com goteira.

E ainda assim dá pra amar o que a gente constrói. Dá pra amar o amor, mesmo com todas as falhas.

Silvana Breion.